Friday, December 15th, 2017 | 2:20 pm
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Depoimento: Yuri Michelato – vida e trabalho na Austrália

O depoimento que o Yuri Michelato postou no grupo do Facebook outro dia levantou muitas questões. Muita gente entendeu a mensagem errada, porque não leu até o fim. Mais de 1900 likes e 400 comentários..

Vale a pena ler até o finalzinho para entender o que aconteceu com o Yuri e saber o que ele tem pra dividir com a experiência de trabalho aqui na Austrália.

 E você, qual é a sua estória?


Primeiramente, gostaria de pedir desculpas por postar a foto. Sei que muitos não gostam de ver essas coisas e talvez não tenham paciência de ler a história completa, mas eu queria ser o mais verídico o possível no meu relato. Enfim:

Cheguei na Austrália no dia 30 de dezembro, ou seja, estou prestes a completar seis meses aqui. Já falava inglês antes da viagem (dava aulas no Brasil) e meu intuito era fazer um curso de gerenciamento de projetos, minha área no Brasil. Cheguei um pouco iludido por minha agência de viagens, achando que tudo seria fácil, que eu poderia trabalhar a hora que quisesse por já falar inglês, e que por ter experiência em multinacionais no Brasil.

Eu não consegui achar emprego no primeiro mês. A situação ficou tão crítica que eu peguei um Busking permit, que é uma licença que você tem que tirar para poder fazer performances na rua, porque eu gosto de tocar violão e cantar.

Finalmente em fevereiro surgiu a primeira oportunidade de trabalho fixo. Trabalhar na obra, por indicação de um amigo. Eu jamais havia usado um martelo na vida, mas estava com sangue nos olhos pra fazer dar certo. Na primeira semana, acordei todos os dias às 3 horas da manhã, pra pegar carona com o dono da homestay que eu moro e ir trabalhar. Tomava dois energéticos, um de dia e um no almoço pra trabalhar. Foi talvez o maior cansaço que já senti na vida. Coisa de não ter força pra caminhar. Eu tenho certeza absoluta que foi meu empenho que me segurou naquele trabalho logo no primeiro dia, porque no final do primeiro dia o cara olhou minha cara de destruído e perguntou “Você vai vir amanhã?”, e eu respondi “Com certeza absoluta. Seis e vinte eu tô aqui”.

Passada a primeira semana, eu comecei a acordar às quatro pra trabalhar. Eu moro a 3 kms da estação e não há ônibus no horário. Por motivos pessoais, nunca consegui sair da homestay onde cheguei (dica: busque acomodações perto de estações de trem, facilita a vida). Ir pra obra é todo dia um drama, tenho que pegar três trens além de correr os 3 kms. O frio de Sydney de madrugada pode ser triste, e testa sua resistência.

Meu trabalho na obra é bem complicado, é cleaner de formworker. Isso significa trabalhar num ambiente sujo carregar madeiras cheias de prego e estruturas pesadas o dia inteiro, em espaços estreitos e com pouca luminosidade, além de ser perigoso, porque eles fazem demolição enquanto você trabalha. A quantidade de cortes e machucados que eu tinha não era brincadeira. No meu primeiro pagamento, veio a surpresa. Me pagaram 120 dólares por dia, quando meu amigo falou que no mínimo era 150. O cara disse que era só as primeiras semanas e que logo aumentaria.

Passaram duas semanas, e ele disse que era no mínimo três meses pra eu receber aumento. Eu pensei em desistir ali, achava que tava sendo enrolado. Mas meu medo de ficar sem emprego, me fez continuar lá. Pra ajudar a situação, eu paguei a homestay com meu primeiro pagamento e me furtaram o que havia sobrado de dinheiro, mas essa é outra história.

Passado três meses, eu recebi meu aumento. De 120, foi pra 130, eu dei risada e pensei em desistir novamente, porque o trabalho era sempre complicado. Mas ao buscar outros empregos, vi que não era fácil, e como tinha um segundo emprego e estava fazendo o trabalho bem, resolvi não arriscar.

Ontem foi um dia que me atrasei dez minutos por causa de um problema em um dos três trens que eu pego. Apesar de eu ter mandado sms pro meu chefe avisando desse atraso, o cara tava virado e ameaçou me demitir. Eu vi que ele estava transtornado com algum atraso, mandando funcionários calar a boca, e, infelizmente, tive que trabalhar com ele no durante à tarde. Ele estava no forklift e eu no palletjack, e estávamos manobrando double-stacks de bearers em um espaço pequeno. Eu tinha que inçar com o pallet jack um dos lados e empurrar essa pilha dupla. Fazer uma força descomunal que me fazia meu corpo inteiro tremer. Mas em um dado momento, uma dessas pilhas escapou e caiu no chão. Ele levantou uma das pontas com o forklift, e eu consegui levantar um pouco com o palletjack e achei que dava pra por um timber pequeno embaixo do meu lado e inçar de novo. Mas não deu e o cara me chamou de burro, falou que eu não tinha qualquer senso pra resolver problemas, e que não sabia o que sentia quando me via trabalhar, se era raiva ou pena, entre outras coisas. Apesar de nunca ter deixado de me entregar por completo no trabalho, às vezes trabalhando por mim e por mais gente, nunca fui tao humilhado e moralmente assediado na minha vida. Mas tinha colocado como deadline sexta que vem, porque é o dia do meu pagamento, e tinha medo de sair e não receber nada.

yuriHoje, o trabalho era tirar material demolido debaixo de uma estrutura de 1 m de altura. Passar a manhã fazendo força com as costas curvadas foi a última coisa que precisava pra pedir demissão. E eu o fiz da melhor maneira possível. Inventei que minhas aulas haviam sido transferidas pra de manhã, e que não havia nada que eu pudesse fazer. Foi satisfatório demais ver a cara de desespero dele perguntando “Como assim? Não tem nada que você possa fazer mesmo?”, dai eu “nada mesmo, acabei de descobrir e minhas aulas já começam amanhã. Mas como eu sei que eu não pude te avisar, se você quiser eu mato aula e venho trabalhar, porque sei que está complicado aqui”. Ele: “Por favor, faça isso”.

Minha mãe sempre me ensinou que independente de quão ruim seu trabalho for, tentar sair pela porta da frente, porque o mundo dá voltas. Ao fazer e falar aquilo, eu acho que garanti meu salário, e evito problemas futuros com isso.

Então, no período da tarde já com a consciência livre, continuei trabalhando firme, e um pedaço de ferro caiu em cima de mim. Consegui me proteger com meu antebraço, mas lá foi o machucado da foto.

Sabe o que me segurou naquele emprego todo esse tempo? Uma única coisa, tentar renovar meu visto.

Sim, eu tive azar aqui na Austrália, mas eu confesso que o fato das coisas sempre terem sido difíceis teve um impacto positivíssimo na minha vida, no meu crescimento pessoal e profissional. Eu vivia uma vida fácil no Brasil, não tinha que me preocupar com nada, tinha até empregada. Quando você está por si próprio, o choque da realidade é muito grande, você precisa se redescobrir como pessoa. A Austrália é um país maravilhoso e encantador, mas que vai testar sua resiliência, sua fé e sua vontade de vencer. Muitas vezes você vai se sentir impotente, incapaz de mudar o cenário, mas tudo faz parte do processo. São nos momentos de maior fraqueza que encontramos nossa maior força, e sempre me lembro algo que um professor meu disse na faculdade : “Há um estudo que diz que quando você está tão cansado que sente que não tem condição de dar mais um passo, é quando você tem 30% de energia restante. Sempre poderá ir mais um pouco à frente”

A verdade é que a idéia de desistir e questionar se tudo vale à pena sempre ronda. Mas na minha concepção vale por dois motivos: A Austrália É um país justo. Eu estou num dos piores empregos possíveis (salário mínimo), e ainda assim ganho o que? 300 reais por dia? Quantos empregos pagam isso no Brasil?

O segundo motivo é que não importa o quanto você possa se dar mal aqui, TUDO é aprendizado, TUDO é experiência, TUDO é crescimento. As coisas que passei aqui jamais passaria no Brasil, e jamais saberia o que é. Uma vez que você vive na pele, você muda seus conceitos, você expande seus horizontes.

Quando eu vi meu sangue hoje escorrendo, eu pensei no Brasil. No orgulho que eu tenho de ser brasileiro. Vejo tanta gente reclamando do nosso país, e sim temos um milhão de problemas e todos sabemos. Mas uma coisa posso garantir, se você botar um brasileiro que quer trabalhar em comparação com qualquer pessoa de país desenvolvido lado a lado, o brasileiro vai ser melhor. Nós quando queremos, nos doamos, nos entregamos de corpo e alma, e dá pra vencer e ir mais longe SIM.

Então, eu recomendo todos virem, independente do seu propósito. Venha de coração e mente aberta, porque assim você encara qualquer desafio com facilidade. E se as coisas aqui não tão dando certo, se você não tá se sentindo bem, não tá aprendendo inglês: amanhã é um novo dia.

Somos inteiramente responsáveis pela nossa própria felicidade, e só você pode correr atrás do seu objetivo. Não culpe os outros, as circunstâncias, aquele coitadismo, e se esforce muito, muito mas MUITO que VAI sim ser eventualmente recompensado. Eu acredito demais nisso, e aqui na Austrália, já tive histórias assim, e ainda espero ter muitas.

Então atualmente eu estou sem emprego e buscando renovar meu visto, mas minha fé nunca esteve mais forte e inabalável.Eu passei por tudo isso por escolha própria, eu sempre tive opções, mas tudo na vida são escolhas, eu fiz as minhas e não me arrependo. Agora estou traçando minhas metas.

E se eu não conseguir renovar meu visto e tiver que voltar pro Brasil, não tem problema. Não me sentirei derrotado. Porque carrego isso tudo comigo, tudo o que eu sou capaz que eu não sabia que era. E algum dia, se Deus quiser, vou poder contar isso tudo pros meus filhos quando eu os tiver.

Essa é a mensagem que eu queria passar pra vocês, espero que tenha sido de algum proveito o tempo gasto na leitura.

Publicação Autorizada por Yuri Michelato.

Sua experiência pode ajudar outras pessoas… E você, qual é a sua estória? Manda para info@brazilinaustralia.com.au

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